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12/11/2008

Retalhos

A Despedida



Subiu as escadas lentamente ao mesmo tempo que sentia toda a sua vida a escorregar pelo corrimão. Fez várias pausas para recuperar o fôlego que teimava em não ajudá-la naquela escalada. Não optou pelo elevador pois poder-se-ia cruzar com alguém quando abrisse a porta e naquela altura era tudo o que menos queria que acontecesse. Abriu a porta de casa e o barulho do trinco foi para ela como que um carimbo no passaporte quando se passa uma fronteira. Finalmente tinha chegado a casa. Encostou-se à porta e ali ficou parada sem conseguir dar um passo. Sentia-se dormente e o silêncio à sua volta era imenso. Tudo parecia vazio. Nada tinha suporte. Apenas o sol espreitava pela janela do seu quarto e já com algum esforço esbatia as paredes da casa com as cores que veste quando se despede do dia. Também ele se preparava para partir...
Sentiu as costas curvarem pelo peso enorme que se apoderava do seu peito e caminhou até ao quarto, caindo na cama. Abandonou-se na convulsão do choro que aguardava ansioso por se soltar e acabou por adormecer.
Mais tarde, acordou no silêncio da madrugada ainda vestida e sentou-se na cama. Com algum esforço, levantou as pálpebras e olhou à sua volta como se tentasse reconhecer aquele lugar. Era tanta a sua vontade de fugir àquela nova realidade que por instantes tudo ao seu redor lhe pareceu estranho. Será que entrei numa realidade virtual ?... Que bom que era ! pensou. Mas nada disso. De facto aquele era mesmo o seu quarto, apenas tinha um ar diferente. A lua tinha vindo substituir o sol. O véu de luar que inundava o quarto dava-lhe um ar místico e foi apenas isso que a confundiu. Respirou fundo numa inspiração cortada por alguns soluços que tinham ficado esquecidos durante o sono e aninhou-se novamente.

Acordou com o burburinho típico do amanhecer. O som das viagens desenfreadas do elevador para cima e para baixo que aos poucos ía tornando aquele prédio deserto. Lá fora ouvia-se o rugido dos motores dos carros que aqueciam para mais uma viagem; a desgarrada entre o toque de alvorada das buzinas que apressavam os mais atrasados e o tímido chilrear de alguns pássaros, um frenesim que mais parecia uma conspiração contra toda aquela dormência que se tinha apoderado de Beatriz.
Lutou contra o seu corpo que teimava em resistir àquele pulsar de vidas alheias e lá se levantou. Deambulou até à casa de banho e começou a despir-se. Sentia ainda a roupa colada à pele do abraço intenso que Rafael lhe dera ao despedir-se. ˝Vais ver que o tempo vai passar rápido... eu amo-te...nunca te esqueças disso Beatriz...espera por mim...˝ - ˝eu vou estar sempre aqui à tua espera... amo-te ...não te esqueças de procurar os meus beijos na lua todas as noites......˝ respondeu Beatriz. Ficaram abraçados como se quisessem parar todo o tempo do mundo naquele instante.
O deslizar da roupa na pele era como se fosse o desenlace daquele abraço e sentiu outra vez aquele peso no peito, mas não quis seguir noutra espiral de tristeza e entrou no duche. Abriu a torneira e deixou-se acariciar pela água durante alguns minutos. Espalhou o gel pelo corpo em movimentos suaves e usou a luva exfoliante...talvez conseguisse arrancar toda a angústia que sentia...
Era estranho sair para a rua sem qualquer destino ou plano traçado.
Olhou-se ao espelho...fechou os olhos e sentiu a mão de Rafael travar o caminho de mais uma lágrima...talvez fosse a última...pelo menos por este dia...o primeiro de uma longa espera sem encontro marcado.
...estamos quase a chegar lá onde queremos ficar para o resto da vida...até já !

22/10/2008

Retalhos

A Demora



“São 19h....”
Como sempre o rádio do carro estava sintonizado na RFM. Era 6ª feira, mas para ela este dia não era o feliz prenúncio do fim-de-semana, aqueles dois dias que a maior parte das pessoas tanto anseia desde 2ª feira. No calendário de Beatriz o Sábado e o Domingo eram dias cinza, tristonhos. Os compromissos familiares de Rafael obrigavam a uma pausa na relação. Nenhum deles se sentia confortável com esta situação, mas por enquanto era aquela que tinham e o desejo de estarem um com o outro sobrepunha-se a qualquer ética ou moral.
Aquela 6ª feira não fugia à regra. Era a semana que terminava e o aproximar de dois dias sem se verem, por isso marcaram um encontro. “O melhor era vires andando para cá. Logo que eu puder saio de casa e encontramo-nos, meu amor” disse ele. “Vou sair já e espero por ti. Beijos amor. Até já” disse Beatriz sentindo já as borboletas no estômago em alvoroço.
Ouviu as notícias já no carro e ao som do bloco de músicas que se seguiu, lá foi andando devagar.
- Isn’t it ironic – Alanis Morissette – “Não podiam ter escolhido melhor música para o início da viagem”.

“Mr. Play it Safe was afraid to fly
He packed his suitcase and kissed his kids good-bye
He waited his whole damn life to take that flight
And as the plane crashed down he thought
-Well, isn't this nice.
"And isn't it ironic ... don't you think”

Era Inverno e o aquecimento do carro não funcionava. Não era novidade e por isso Beatriz não se esqueceu das luvas nem do cachecol, imprescindíveis sempre que saía principalmente à noite. Estava algum trânsito, o normal para aquele dia da semana, mas para já não havia muita pressa, por isso seguiu tranquila no “pára-arranca”.

“São 20h...as notícias com....”
Estava a chegar ao local. Procurou um lugar para estacionar. Era hora de chegada a casa, com os filhos e compras e nada de lugares. Queria ficar com um bom ângulo de visão, para o ver descer e fazer-lhe sinais de luzes. Finalmente encontrou um beco onde estacionou, ficava um bocado longe, mas mesmo assim conseguia ver o fim da rua de Rafael.
O frio apertava agora que estava parada com o carro desligado. “Já devia ter mandado arranjar este aquecimento...”

“It's like 10,000 spoons when all you need is a knife
It's meeting the man of my dreams
And then meeting his beautiful wife
And isn't it ironic... don't you think
A little too ironic… and yeah I really do think...”

Reclinou o banco e tirou o telemóvel da mala, não fosse ele ligar e não ouvir o toque. O sítio onde estava era escuro e não tinha muito movimento. Havia apenas portas de garagens onde funcionavam oficinas e àquela hora não estava lá ninguém. Ao longe via os carros a passarem e nenhum era o dele. Já começava a ter fome, mas não queria sair daquele lugar. A qualquer momento ele podia sair de casa e Beatriz queria estar a postos para não perderem sequer um minuto. Também não podia ligar-lhe e por isso continuou à espera de um sinal qualquer.

“São 21h...”
Ao ouvir as horas anunciadas pela mesma voz de há duas horas atrás, começou a achar que ele já não vinha. Alguma coisa acontecera, nada de grave, apenas algum imprevisto o tinha impedido de se encontrar com ela. A dúvida deixava-a inquieta, porque não tinha como saber porquê. Estava gelada, com fome e farta de estar ali naquele sítio escuro, mas também não queria sair dali. “E se ele liga ou aparece e eu já estou a caminho de casa ?” Preferiu ficar à espera de um outro qualquer imprevisto que contrariasse aquele que o impedia de sair de casa.Subiu as costas do assento para ficar numa posição mais alerta e foi conferindo cada par de faróis que aparecesse no final da rua ou a silhueta de alguém corajoso que andasse na rua naquela noite fria.Os minutos arrastavam-se pelo relógio e até parecia que às vezes num descompasso imprevisto os ponteiros voltavam para trás.Aos poucos a quantidade de carros começava a diminuir porque já tudo tinha chegado a casa e ninguém se atrevia a sair para a rua com o frio que se fazia sentir.O cenário começava a ficar sem personagens...Apenas restavam duas em cantos diferentes. Beatriz permanecia no carro e Rafael estaria algures no cimo daquela rua mesmo à sua frente e tão longe.

“São 22h...”
Viu-se naquele beco escuro e ouvia o vento lá fora como se estivesse zangado a rodopiar à volta do carro. Naquele momento, apoderou-se de Beatriz uma sensação de abandono que a deixou numa tristeza profunda. Estava gelada e o mais sensato seria ir para casa, mas quando chegasse ninguém estaria à sua espera e precisava tanto de um colo, alguém que lhe dissesse aquilo que ela repetia para si mesma. “Está tudo bem... 2ª feira será outro dia”. De qualquer forma estaria sempre sozinha, por isso voltou para casa, pelo menos estaria muito mais confortável.
Tomou um banho bem quente e aconchegou-se na cama.
Passados alguns minutos o telemóvel tocou...
”É só para dizer que te amo. Desculpa.” disse Rafael num sussuro.
“Eu sei...não faz mal...também te amo”
E deixou-se adormecer ao colo de Rafael.

"Well life has a funny way of sneaking up on you when you think everything's okay and everything's going right
And life has a funny wayof helping you out when you think everything's gone wrong and everything blows up in your face
Isn’t it ironic…don’t you think ?"

26/08/2008

Senti assim


Apenas a sensação de não sentir...
Foi assim que senti a tua presença.
Vazia, oca, desconhecida...
Melhor que sentir tristeza, pena, lágrimas.
Se calhar deveria...
Serei fria ?
Já não é tempo de grandes introspecções
Porém confesso...
Senti talvez um pouco daquilo a que se chama
Um gosto amargo...
Mas houve tanto doce à minha volta
Que nem me conseguiste arrancar uma careta
Só estas palavras..
Arranjadas em forma de poema.

11/06/2008

Cria

“Crescendo foi ganhando espaço
pulou do meu braço,
nasceu outro dia já quer ir pro chão
já fala mãe, já fala pai
já não suja na cama,
não quer mais chupeta, já come feijão
e posso até ver os meus traços nos primeiros passos tropeça, seguro, e não deixo cair
se cai, levanta, continua a porta da rua fechada
a criança não deixo sair da linha, da linha
reflexo no espelho, levo a emoção
a lágrima ameaça do olho cair
semente fecundou,

já começa a existir
é cria, criatura e criador
cuida de quem me cuidou
pega na minha mão me guia”

-Cantado por Maria Rita -






Minha cria !!!

A parte de ralhar por causa das notas, das horas de ir para a cama, de lavar os dentes, das lições sobre o que é um amigo verdadeiro, dos perigos que espreitam, dos piercings, da ciência de lidar com a adolescência...é a parte mais aborrecida de ser mãe ou pai, mas é assim...as mães e os pais têm de dizer estas coisas, faz parte do nosso papel, que no fundo é de amigo, mas um cadinho mais chato que os outros.

Que cresças sempre assim como tens crescido até hoje.

Saudável, alegre e puro !!

PARABéNS denósparati e

BEIJOS no nariz

03/06/2008

Sob medida



'Se você crê em Deus erga as mãos para os céus e agradeça
Quando me cobiçou sem querer acertou na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea, seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto (seu jeito, seu gesto)
Sou perfeita porque igualzinha a você
Eu não presto, eu não presto
Traiçoeira e vulgar sou sem nome e sem lar sou aquela
Eu sou filha da rua, eu sou cria da sua costela
Sou bandida, sou solta na vida e sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus
Se você crê em Deus encaminhe pros céus uma prece
E agradeça ao Senhor, você tem o amor
Que merece !"

28/05/2008

Galeria



É tempo de arrumar...
Reciclar...
Está cheia a galeria de memórias e bocados de vida.
É preciso resolver o problema de espaço
Para os outros que chegam a cada dia.


Ora...

...um canto especial para as grandes obras,

Reduzir alguns quadros a tamanho de postal

e derreter outros para pintar novas telas.


Tanto espaço !!